Peter Von Kant

PETER VON KANT – DE FRANÇOIS OZON (2022) por MARCELO DANTAS, cineasta.

Salvador, 2 de Julho de 2022 – O filme que vocês vão assistir em seguida, Peter Von Kant, do cineasta francês François Ozon, é o que se chama de “filme evento”. Isso porque antes de se conhecer a obra em si, ela traz um conjunto de significados e representações que já lhe dá uma importância especial, independente do sucesso efetivo que o filme venha a ter, de público ou de crítica.
Esse filme é mais do que um remake: ele é a reelaboração de uma obra prima do passado para falar da contemporaneidade. E mais que tudo, Peter Von Kant é uma homenagem ao cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder, que morreu em 1982, há 40 anos, de uma overdose, quando tinha apenas 37 anos. E para homenageá-lo, mas também contribuir para a divulgação da sua obra para o público atual, François Ozon escolheu refazer, com nova abordagem, um dos seus filmes mais célebres, o melodrama “As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant.
Por que esse e não outro filme da vasta obra de Fassbinder foi escolhido por Ozon? Podemos especular os vários motivos. Lágrimas Amargas de Petra Von Kant faz 50 anos de lançado, exatamente em 2022, ano em que François Ozon lança o seu Peter Von Kant. Segundo, porque além de ser uma obra prima do cinema, As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant foi, sem dúvida, o primeiro filme de amor lésbico a se tornar um cult em todo o mundo. O filme de Fassbinder, extraído da peça de teatro homônima, de sua própria autoria, seguiu décadas afora, após o seu lançamento em 1972, como uma obra seminal, reforçada pela popularidade e sucesso mundial da peça. Montada em dezenas de países e em várias línguas, que contribuíram imensamente para dar importância histórica e cultural à obra durante cinco décadas, até hoje.
No Brasil, a peça foi montada em 1984, dirigida por Celso Nunes, e estrelada por Fernanda Montenegro e Renata Sorrah tendo se tornado um dos maiores sucessos de público do teatro brasileiro, além de consagrar Fernanda Montenegro com os prêmios mais importantes do teatro do Brasil, renovando definitivamente a sua carreira para mais algumas décadas de conquista de novos públicos.
François Ozon não tem medo de se arriscar: o que era um amor entre duas mulheres, em Petra, se transforma num amor entre dois homens em Peter. Isso porque ele se sente identificado com Fassbinder. Além disso, as afinidades entre os dois cineastas são flagrantes, ambos são gays, ambos adoram o melodrama como gênero cinematográfico e ambos são superprodutivos: François Ozon faz um filme por ano, desde que estreou em longas metragens em 1997. Fassbinder, talvez recordista mundial, em 16 anos de carreira fez mais de 40 filmes, numa estatística que mostra um filme a cada 100 dias. Essa produtividade impressionante de Fassbinder era explicada pro ele mesmo com a frase: “terei todo o tempo para dormir quando morrer”.
Uma alma torturada pelos fantasmas de uma Alemanha do pós Guerra, Fassbinder nasceu em 1945 e a sua geração que se torna jovem adulta na segunda metade dos anos 1960 foi responsável pelo impactante Novo Cinema Alemão, que incluía Margareth Von Trota, Wim Wenders, Volker Schlondorff, Helma Sanders-Brahms e o contemporâneo, mas isolado da turma Werner Herzog. Uma geração genial que conquistou prêmios nos principais festivas de cinema, além do Oscar, e que levou ao mundo as angústias dos jovens, filhos e netos de nazistas, que cresceram sob o manto da vergonha de todo um povo e principalmente sob o silêncio irredutível de pais e avós que se recusavam a falar da Guerra e muito menos de que papel haviam exercido no nazismo de Hitler. É esse silêncio de suas famílias e de toda uma nação que eles transformam em gritos através de filmes dramáticos, violentos, cruéis mesmo, dissecando os corpos e as almas da Alemanha, Mãe Pálida, título da obra prima de sua colega do movimento, a cineasta Helma Sanders-Brahms.
A cereja do bolo dessa homenagem de François Ozon a Fassbinder é Hanna Schygulla. Jovem colega de turma de Fassbinder do curso de teatro, ela se tornou a atriz que mais fez filmes com ele, inclusive As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, em que faz o papel de Karin, a jovem linda e cruel que seduz e transforma a forte e autoritária Petra Von Kant numa submissa pedinte de amor. Depois dessa interpretação memorável, Hanna Schigulla seria dirigida pelos grandes cineastas da época, como Ettore Scola e Jean-Luc Godard, tornando-se uma das poucas atrizes a ganhar os prêmios de melhor atriz nos festivas e Cannes e Berlim. Hoje, aos 78 anos de idade, Hanna Schygulla é uma das personagens do filme Peter Von Kant, fazendo a ponte direta com As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, de 50 anos atrás.
Finalmente, para ficar ainda mais claro que Peter Von Kant é uma homenagem não apenas ao seu filme cinquentenário, mas ao próprio Fassbinder, François Ozon usa como cartaz de Peter Von Kant, uma releitura direta do cartaz do último filme de Fassbinder, Querelle, baseado na peça de Jean Genet, que foi criado para o filme especialmente pelo artista plástico Andy Wharol.

Marcelo Dantas- Professor de Economia da Cultura do CECULT/ UFRB, roteirista e cineasta preparando seu primeiro longa-metragem.

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