Lições que uma repórter aprendeu com o GGB.

em


Cleidiana Ramos.

Salvador, 28 de Fevereiro 2020.


Minhas primeiras informações sobre o Grupo Gay da Bahia (GGB), essa instituição que comemora aniversário em constante ebulição e atualização, veio por linhas tortas. Eu pensava, mas ainda não tinha certeza sobre virar jornalista porque no final do curso de magistério em 1991 estava mais nítido o desejo de me tornar uma religiosa de uma congregação católica. Neste período trabalhava em uma farmácia em Iaçu, que pertencia ao meu irmão, e, como ele e meu pai tinham o hábito de comprar jornais, passei a ver as referências ao GGB associadas ao seu então presidente Luiz Mott, mas por meio de ofensas na coluna de cinema de A Tarde assinada por José Augusto Berbert de Castro.
Mesmo sem nenhum contato direto com as pautas do movimento de defesa da cidadania da naquela época chamada comunidade GLS (Gays, Lésbica e Simpatizantes) eu já me indignava com as ofensas de Berbert a Luiz Mott. Achava tudo aquilo um desaforo e me perguntava como era possível um jornal veicular textos naquele formato. Sou de uma família, ainda bem, sempre vinculada à defesa de questões progressistas e contra todos os tipos de exclusão.
Como o projeto de virar religiosa não se concretizou, o plano de carreira no jornalismo me arrebatou. Em questão de seis meses eu saí de um convento para a Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom- Ufba), o que me levou de volta ao hábito de ler jornais. E lá estava o GGB novamente em pautas de cidade sobre as campanhas de prevenção ao HIV/AIDS, mas também em outros embates de Luiz Mott. Lembro-me, especialmente, do burburinho em torno do seu casamento com Marcelo Cerqueira e as reportagens dos jornais, inclusive uma que registrou que no dia da celebração a terra tremeu na Bahia.
Em 1998 eu me tornei membro da equipe de A TARDE com apenas algumas semanas de graduação. Olha a coincidência. E foi nesta redação que vi, gradativamente, a mudança em relação ao GGB, o fim dos ataques a Mott a partir de suas providências, inclusive recorrendo a instituições internacionais e conheci mais de perto o GGB. Em um primeiro momento o contato era por meio de relatos de colegas que faziam matérias, como a campanha para que gays também tivessem acesso a uma praia de naturismo, ações de conscientização em relação a direitos e prevenção especialmente de HIV/Aids até que finalmente fui escalada para cobrir, em um Carnaval, o Baile de Fantasia gay.
Ali eu me apaixonei profundamente pelo evento. Adorei a exibição das fantasias do luxo mas também aquelas que não perdiam o vínculo com o deboche do começo da festa que depois soube ser o embrião do evento: o movimento realizado nas escadarias do Palácio de Esportes. O Baile de Fantasia Gay durante o Carnaval, na Praça Municipal, era um dos eventos que eu pedia para cobrir. Tudo era sempre instigante, como a empolgação de um público misto, ou seja, formado pela comunidade LGBTQUIA+ e famílias inteiras com uma presença significativa de crianças e sem manifestações de ódio.
Eu, uma mulher negra e cis, assim como pelo ofício de repórter fui amadurecendo reflexões em relação às questões étnico-raciais sem perceber também aprendi muito com o GGB. Destaco especialmente o quanto o ativismo pode ser feito de muitas nuances, ou seja, denunciar a homofobia, as lesbofobia e a transfobia e as tantas violências que elas produzem é revolução assim como lutar pelo direito à frequência em uma praia ou ser inserido na programação oficial do Carnaval. O que não se faz com discurso ou passeata não significa de menor importância.
Desejo, portanto, ao GGB vida longa com capacidade de renovação sempre em modo polêmico, mas eficaz. Com estratégias variadas também se faz uma boa revolução.
Cleidiana Ramos e jornalista e doutora em antropologia.

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